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OPA! pergunta, Jason responde... 1 – Qual o “insight” para a escrita de sua obra?  Quando escrevo, eu busco atingir o meu lado mais obscuro, procuro rumar em direção ao desconhecido. Geralmente, penso num enredo, na trama, mas quando sento pra escrever, esse enredo se dissolve num misto de sensações e impressões que saem, não sei de onde. Só como exemplo, há um poema no meu blog (www.esvaziarnuvens.blogspot.com) intitulado "Para alinhar o meu nome". Eu estava sentindo uma angústia no ar, mas não conseguia pensar em nada para escrever. E não sou poeta. Mas para tentar dissipar a angústia, sentei para escrever, e o poema saiu, espontaneamente. Depois corrigi apenas uma palavra ou duas, acrescentei algumas vírgulas e travessões - mas não sei de onde saiu o poema, quais recônditos obscuros fizeram parte de sua gênese. Eu, que nunca escrevi poesia, acho que é a melhor coisa que escrevi até hoje, talvez por não saber de onde saiu - mal recoheço esse texto, e acho que é isso mesmo - ele não é mais meu, nunca me fez sentido algum, embora ache-o bonito. Em suma, não sei se acredito em "insights". O texto pulsa nas veias e nasce. 2 – Há um microcosmo em sua obra (Assim tipo Macondo é microcosmo na obra do Gabriel Garcia Márquez)? Há. É o corpo feminino. No meu livro de contos ("Eram os deuses escritores?", Anomelivros, 2004) escondi esse corpo-território no conto "No vale da solidão". Na nova novela "Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal" (Quarto Setor Editorial, no prelo), o corpo feminino é o território habitado pelo escritor fracassado Aderaldo Cintra, que muito amou e viveu, mas não sabe falar disso. Deus é uma mulher, tenho certeza. A vida, veja só - feminina. A mãe natureza desdivinizada - mulher. A Terra que brota. A existência gerada. Meu microcosmo. 3 – Qual foi a recepção de sua obra no meio literário? E no meio social? Ainda não possuo uma obra, de fato. Um livro de contos publicado, uma novela no prelo, um ensaio acadêmico sobre Machado de Assis e Nietzsche, alguns artigos acadêmicos sobre Machado, Lobo Antunes, artigos sobre cinema, em suma, não sou conhecido como escritor nem como crítico, ainda. Mas começo a aparecer e circular. No meio social, nenhuma crítica mais severa, mas isso justifica-se pela amizade das pessoas ao nosso redor. Invariavelmente, os amigos elogiam nosso texto para não nos chatear, e os alunos, com medo de serem reprovados. Em suma, não dá para falar em recepção, de fato, dos meus poucos escritos espalhados em cadernos acadêmicos, livros e sites. 4 - O que seria hoje uma literatura de protesto e denúncia? Ainda existem “vanguardas”? Creio que existam sim "vanguardas", seja lá o que quer que se considere uma vanguarda. Uma literatura de protesto, de denúncia, para mim, é qualquer literatura. Nunca concordei com estas vertentes ditas "ultra-hiper-super-mega-realistas". Bobagem. Digo que qualquer literatura é uma forma de protesto, porque ninguém lê, ninguém pensa, ninguém cria nada. Então, quando assume-se o compromisso em fazer estas coisas, é-se automaticamente revolucionário, contestador, pois não há nada menos natural no homem do que ler e escrever. Há um processo de aculturação a ser sofrido, quando passa-se horas a ler e escrever. Afinal, o homem é só um animal agraciado com a razão. Então, para denunciar qualquer forma de opressão, tentativa de controlar um grande número de pessoas, ou o que quer que seja, os artistas são necessários, pois clamam para que as pessoas pensem, convidam ao incômodo da reflexão. E não penso aí, somente na literatura. Penso na música, na pintura, no cinema, até mesmo no teatro que, para mim, sempre pareceu uma arte inferior. Hoje vejo que não. O teatro é importantíssimo e belo. 5 - A Obra é maior que o Autor? Deveria ser, pelo menos. Há uma frase do António Lobo Antunes de que gosto muito. Ele disse em recente entrevista que "se os livros viessem sem o nome do autor, uma série de problemas estariam resolvidos". Concordo com ele, e interpreto da seguinte maneira: a arte sempre será um resultante de forças antes criadas, ou seja, sempre criamos a partir de coisas que lemos, sentimos, vivemos, ouvimos. Pensando assim, é impossível ser original, pois o mundo, as idéias estão sempre por aí, no ar. Cabe aos artistas, "mediunicamente", apreender e aprender essas idéias, e depois transformá-las em códigos, de modo que as pessoas desfrutem da sua interpretação destas coisas todas que estavam no ar. Ora, grosso modo, o autor então não cria nada - apenas codifica coisas que estão por aí, vagando pelo espírito do tempo. Então a idéia clássica de autor esvai-se, como as nuvens. Deveríamos criar um novo nome para o que convencionamos chamar de autor - "decodificador", talvez... 6 – O que é ser Poeta (escritor) nesta “mineira capital” ? Ser escritor em Belo Horizonte significa ter a melancolia deste "povo das montanhas" como o mais belo mote para afirmar a vida. 7 – Para finalizar, uma obra que recomenda e uma que censura. Recomendo a obra do escritor português António Lobo Antunes. Qualquer livro dele. Sua escrita é de uma beleza ímpar. Agora, quanto a censurar uma obra, não posso fazer isso. Pois mesmo que estejam lendo coisas de qualidade questionável, as pessoas têm lido muitos livros de auto-ajuda e tablóides vendidos a vinte e cinco centavos. E é fantástico que ao menos as pessoas estejam, de fato, lendo mais. O que quer que seja. Agradeço a oportunidade de falar um pouco - isto é muito raro. Obrigado aos membros da OPA! pela oportunidade. Conheça mais sobre o autor: www.esvaziarnuvens.blogspot.com
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