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Clevane Pessoa Imprimir E-mail

1 – Qual o “insight” para a escrita de sua obra?

Bem , eu deito e acordo, desde minha percepção de mim mesma em relação ao Mundo e ao Outro, tendo insights.Minha mãe era uma grande contadora de histórias, meu avô materno era poeta e jornalista , o paterno era maestro.As avós, longevas- por pouco não chegaram a um século de existir .E viajei pelos brasis a ponto de , ao concluir o primeiro grau, já haver passado por oito escolas.Comecei a ler aos três anos de idade , porque meu pai estava na fronteira com a Colômbia , em Japurá, e não havia muito para minha mãe fazer .Então, li e escrevi desde cedo.Isso formou em mim uma fábrica, um forno de insights, o que me ajudou bastante inclusive na faculdade .Um certo estado de prontidão, mas tudo, de forma simples , natural.Penso que nenhum rasgo de genialidade.
O insight para minha escrita é a própria idéia em si.Ou a partir de um mera palavra, um conceito ou uma estrutura motivadora, eclética.


2 – Há um microcosmo em sua obra (assim tipo Macondo é microcosmo  na obra de um Garcia Márquez)?

Há muitos microcosmos.Cada conto é um (por exemplo em Mulheres de Sal, Água e Afins-Edit.Urbana, RJ/Libergráfica/Bh), cada novela  (inéditas), cada poema ou mesmo haikai, representa um enxame de informações que compõem o que quero apresentar à luz.


3 – Qual foi à recepção de sua obra  no meio literário? E no meio social?

Recebo  e-mails e telefonemas interessantes , sobre meu “que -fazer” literário, mas ,sinceramente, não sei, pois aqui em Belo Horizonte, não logro alcançar bem a mídia enquanto poeta ou escritora: gosto mesmo é de desenhar e sou caseira, saio pouco, não gosto de pedir atenção. Jovenzinha, declamava poemas e ainda gosto de interpretar. Psicóloga, era constantemente entrevistada  e fiz comentários de comportamento no Jornal da TV  Bandeirante. Recebia repórteres em meu consultório ,em casa, em praças-e se divulgo tantos , é para cumprir minha missão de jornalista. Nos Anos 60/70, em Juiz de Fora, tive intensa vida literária .Isso  remete ao fato de que em nosso País, não existe a profissão “Poeta”-  um exemplo. Ou de que o poeta, o escritor, somente depois de famoso , tem vez.Enquanto a sexóloga, a psicóloga, corria Estados - chamada a fazer oficinas e ministrar palestras, participar de congressos - a senhora das Letras restringe-se a um grupo cativo de leitores.Mas , através da Internet, sou lida, dos e-books aos blogs.

Posso mesmo afirmar que , no Mundo virtual, tenho uma identidade literária e alto grau de aceitação .Fora, apenas de alguns anos para cá, comecei a participar de alguns locus e alguns grupos – por exemplo, gosto de estar, no segundo domingo de cada mês, no Sementes de Poesia do MUNAP : simples e agradável estar a céu aberto, dizer e ouvir poemas .Também apreciei ler aquele ensaio sobre o Wilmar Silva/Joaquim Palmeira no Banquete de Idéias, do OPA.Frequentar as Terças Poéticas, na medida do possível, é bom.E de alguns grupos, afasto-me um pouco.

 

4 - O que seria hoje uma literatura de protesto e denúncia? Ainda existem “vanguardas”?

Concordo sempre com Ionesco, quando afirma que Vanguarda é a liberdade.Até escrevi:”A liberdade de ser/é o direito de estar, na estrutura do fazer,/sendo”.
Vivi uma época na Brasil em que o bem mais precioso a se buscar era a liberdade “no aqui e no agora”.
Nesse sentido, em todos os tempos, sempre os intelectuais serão vanguardistas, quase uma missão. Na França, pessoas quais Sartre, eram ouvidas em questões políticas- e os outros eram veementemente  contra ou a favor .Isso era instigante e necessário.Quem viveu na época da Ditadura, sabe que artistas, poetas , intelectuais eram as vozes que se erguiam.Lembro-me da revista da editora Civilização Brasileira –na verdade um livro sempre aguardado então - que ousava publicar fotos dos artistas no Rio, posicionados em palanques a defender a Liberdade.E usavam todos os meios,desde estratégias de metáforas, mais subentendidas ,ao grito puro, simples mas contestador, de quem sabe o que diz.E tenta suportar as conseqüências -conforme fazia Glauber Rocha.

Naturalmente, aos sessenta e dois anos, percebo que as pessoas acomodaram-se, mesmo com fatos apontando as falcatruas e o exercício violento do poder ,camuflado tantas vezes em benesses sociais.Minha expectativa  é que a mais nova  juventude entenda que o exercício da  liberdade é a motivação básica ao escritor, ao artista.
No entanto, mesmo com a palavra mais frouxa, sempre haverá vanguardas, pois sempre existirá alguém  mais corajoso para demolir verdades estabelecidas e diluir pré/conceitos. Pelo menos tentar, já que o conceitual nasce do self, numa experiência pessoal, singular. No entanto, não gosto de generalizar .Há uma grande zona de ações entre pólos de relativo e absoluto:cada qual percorre esse espaço conforme deseja ou precisa.Acredito na juventude-e isso tem muito pouco a ver com a idade cronológica.Uns envelhecem bem cedo, porque aceitam tudo ,repetem o que já foi aceito sócial e politicamente, artística ou literariamente.Pobres de espírito (não no sentido bíblico, mas no de escassez de novos conteúdos), covardes o suficiente para não conseguirem sentar-se , por exemplo, ao redor de uma távola  para um “Banquete de Idéias”. E se o fazem, calam-se, dizem coisa óbvias .Ou borram-se em pleno exercício do seu direito de ali estar. Sua zona de conforto é muito estreita ou muito larga- e todo extremo é perigoso.

5 - A Obra é maior que o Autor?

 Ah, não !  A Obra pode ficar por aqui quando o Autor parte, mas ela sequer existiria sem ele. Pode ser grandiosa, marcante, mas sempre deverá fazer com que se remeta ao autor ,à sua força .Nenhuma criatura existe sem o princípio básico usado pelo seu criador.Se ele for chato, avaro, bruto, ateu ,agnóstico, santo, generoso, genial, medíocre, ainda assim , a essência humana é a força real que dá á luz uma Obra. Muitos perdem um tempo precioso , ao tentar sobrepujar os demais, escrevendo, por exemplo, ”bem”. Dizem que “suam” para escrever Poesia.Não deveriam esquecer que suar é natural -que suados na cama com um parceiro sexual ou sozinhos em frente a uma tela de computador ou debruçados sobre um papel,  sempre serão isso:  pessoas.A criatividade é inerente ao criador, em qualquer gênero, escola, novidade ou conceito a que se dedique no momento.E às vezes, ser um mero espectador de si mesmo,de seu tempo, invenção, é a chave para ser bom no que se faz...Nem sempre isso resulta numa grande Obra, e há os que escrevem uma premiada ou reconhecida, mas continuam pequenos e medíocres.


6 – O que é ser Poeta (escritor) nesta “mineira capital”?

É ser como seria em qualquer outra capital ou interior deste  país ou noutro.Um artesão do verbo, um ourives das idéias, uma criança a montar legos/logos, um bardo, vate, autor .Um solitário ou um ser grupal, que não acha editores e quando os encontra, publica livro e depois percebe que não há distribuidores nesta capital capazes de ajudar efetivamente quem escreve Poesia, quais  os interessados e presentes  agentes literários que sabemos existir ou conhecemos de filmes .

O autor se endivida  às vezes –chega a cometer  suicídio quando percebe que só consegue vender na noite de autógrafos.Ou sai e oferece seus exemplares  ele  mesmo, na noite, de dia –  a correr o risco de parecer um chato, um insistente, ou passa a viver desolado, frustrado e não raro envergonhado porque não vende.Deixa em consignação em livrarias, depois passa e nem enxerga seu livro  entre os muitos de editoras famosas que ali estão expostos . Mas há um boom interessantíssimo no cenário da capital mineira: depois de anos e anos de luta, alguns começam a lograr êxito.Um golpe de sorte ou não, mas sempre um somatório de luta contínua.É por isso que os Poetas/autores mineiros de Belo Horizonte, confundem –se nessa questão do suor do poeta . Um exemplo inconteste  são as Terças Poetas , nos jardins internos do palácio das artes . Wilmar Silva/Joaquim Palmeira reúne ali uma plêiade  eclética, de qualquer faixa etárias, estudantes e mestres, iniciantes e renomados, mineros ou não, residentes na capital ou de outros estados/países , em especial lusófonos .Mas o curador, que é poeta e editor vem lutando há anos até alcançar esta situ/ação.

Há eventos anuais-qual o Belo  Poético  (Rogério Salgado e Virgilene Araújo) , mensais, quais o Sarau de Poesia no Centro Cultural da Lagoa do Nado (leia-se Ricardo Evangelista ), revistas (por exemplo Dez Faces) , o Mural Mulheres Emergentes, vinte anos de existência (leia-se Tânia Diniz) . Ouvimos sempre comentários sobre o Suplemento Literário, que apesar de ser apoiador  das Terças Poéticas, não dá cobertura aos poetas todos que fervilham em Belo Horizonte. O Banquete de Idéias do OPA é estruturado pra instigar. Mas ainda é pouco.E vou parar de citar, para não correr o risco de deixar alguns de fora  : o que citei , representa algumas ações a favor do Poeta e da Poiesis e fecho lembrando que há ótimos zines e livros artesanais circulando .Então, ser poeta na mineira capital é, além de criar poemas, tentar fazer parte de constelações, desejar ser ouvido por um meio de comunicação, elaborar livros e soltar a voz, afiliar-se a instituições ou optar pela liberdade de ser Poeta livre.

7 – Para finalizar, uma obra que recomenda e uma que censura.

Desculpe, Leo, mas vou citar mais de um- e gosto de mil, desgosto de milhares:
Manoel de Barros, claro:Memórias Inventadas- A Terceira Infância.
Todos os livros do casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna.
Apenas porque os leio e releio mais que aos outros.

Censuraria ? Esse verbo de me dá arrepios. Às vezes, um livro vale por um único neologismo, um verso arrasador, um poema .Tenho muitos , leio-os e releio-os. Para mim , a pessoa que escreve vale mais que seu arado de estrelas. Não censuro livros, pois fui jovem durante Ditadura e fiquei para sempre viciada na liberdade de ser, do ser.

 
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